Jogadores de futebol a pressionar em conjunto imediatamente após perder a bola

Gegenpressing no Futebol: Quando o Contra-Pressing Falha e Porquê

Todo o treinador quer implementar gegenpressing depois de ver o Liverpool de Klopp. A maioria não devia. Porque o contra-pressing falha em equipas amadoras e semiprofissionais.

Escrito por

João Araújo

Professor de Educação Física (FADEUP) · Treinador de Futsal – Grau II · Licença UEFA B · Mestre em Educação Física

15 anos ligado à Educação Física em contexto escolar, 20 anos ao treino de futsal em escalões de formação e 5 anos como treinador de futebol. Atleta federado e amador de futebol e futsal.

Todo o treinador amador que vê um jogo do Liverpool ou da Alemanha volta ao treino seguinte a querer implementar gegenpressing. É compreensível: poucas imagens táticas são tão viscerais como uma equipa a recuperar a bola três segundos depois de a perder, ainda no meio-campo adversário. O problema é que a maioria das equipas que tenta isto não devia. Não porque o conceito seja mau. Porque falta quase sempre a condição que o torna possível.

O Que Toda a Gente Diz (E Porque Está Errado)

O discurso comum é: “gegenpressing é só pressionar forte assim que perdes a bola”. Não é. Essa definição reduz um sistema a um gesto isolado, e é exactamente esse mal-entendido que explica porque tantas equipas amadoras o tentam e acabam pior do que estavam antes.

Gegenpressing funciona porque a equipa já estava organizada compactamente antes de perder a bola: os jogadores estavam perto uns dos outros, com distâncias curtas entre linhas, prontos para rodear o adversário que acabou de receber. Sem essa compactação prévia, “pressionar forte depois de perder a bola” não é gegenpressing. É só correr atrás da bola, isoladamente, e normalmente abre mais espaço do que fecha.

O Que os Dados e a Experiência Mostram

Trabalhei com uma equipa sénior amadora que decidiu instalar gegenpressing a meio de uma época depois de um treino inspirado num documentário sobre o Dortmund de Klopp. Nas primeiras três jornadas, sofreram mais golos em transição do que em toda a primeira volta do campeonato. A razão não foi falta de vontade, mas falta de condição física para repetir esforços máximos de 5 a 6 segundos, várias vezes por parte de jogo, semana após semana. Sem essa base física, o segundo e terceiro jogador do pressing chegam sempre tarde, e “gegenpressing” transforma-se em três jogadores a correr atrás da bola enquanto o resto da equipa fica desorganizado atrás deles.

É por isto que uso a Ferramenta de Quadro Tático da SportsLabTools para desenhar, jogador a jogador, quem cobre quem nos primeiros três segundos depois de perder a bola, não para decorar uma animação bonita, mas para confirmar, antes de o testar num jogo real, se o plantel tem gente suficiente perto da bola para que o sistema funcione.

Quando a Regra Geral Ainda Se Aplica

Não estou a dizer que gegenpressing não serve equipas amadoras, mas sim que raramente serve como sistema permanente. Onde funciona bem, mesmo a nível amador, é como ferramenta pontual: nos primeiros dez minutos depois do intervalo, quando a equipa ainda está fresca, ou em fases específicas do jogo em que a equipa já está organizada de forma compacta por outras razões (por exemplo, depois de um canto perdido). Também não tenho a certeza se isto se aplica da mesma forma a escalões de formação mais jovens (sub-13, sub-15), onde a capacidade de repetir esforços é ainda mais limitada, mas onde a compactação como princípio de organização já vale a pena ensinar cedo.

Consulta também: Pressing Alto no Futebol: Linhas de Pressão e Gatilhos para Recuperar a Bola: a base estrutural de linhas e gatilhos sem a qual o gegenpressing nunca vai funcionar.

O gegenpressing não é uma filosofia que se instala num treino depois de ver um vídeo do YouTube. É a consequência de uma equipa já compacta, já bem condicionada fisicamente para repetir esforços máximos, que decide usar essa organização também depois de perder a bola. Se a tua equipa não tem essas duas coisas primeiro, o que vais treinar não é gegenpressing: é só cansar os teus jogadores mais depressa do que o adversário.


Testa a estrutura antes de a levares para o campo. Usa a Ferramenta de Quadro Tático da SportsLabTools para desenhar as coberturas do teu pressing após perda de bola.


*Este relato baseia-se num caso real, mas a identidade da pessoa foi preservada e alguns detalhes do contexto foram recriados para fins ilustrativos.*

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