
Gestão de Carga nos Jogos-Treino de Pré-Época no Futebol: Minutagem sem Lesionar
Como planear a progressão de minutos dos jogadores nos jogos-treino de pré-época para chegar à jornada 1 competitivos e sem lesões musculares.
Escrito por
João Araújo
Professor de Educação Física (FADEUP) · Treinador de Futsal – Grau II · Licença UEFA B · Mestre em Educação Física
15 anos ligado à Educação Física em contexto escolar, 20 anos ao treino de futsal em escalões de formação e 5 anos como treinador de futebol. Atleta federado e amador de futebol e futsal.
Todos os anos é a mesma história: um jogador entra motivado no primeiro amigável, joga 70 minutos porque “está bem fisicamente”, e duas semanas depois está a tratar de uma lesão muscular no departamento médico. O jogo-treino de pré-época não é um jogo normal: é uma ferramenta de carga que precisa de ser dosificada como qualquer outro estímulo do microciclo.
O problema é que a pressão competitiva (o adversário, o resultado, a exposição pública) leva treinadores e jogadores a esquecer que ainda estamos a construir a base física. Gerir a minutagem dos amigáveis com um plano escrito, e não ao sabor do momento, é o que separa uma pré-época que termina com o plantel disponível de uma que termina com a enfermaria cheia.
Por Que a Gestão de Minutos nos Amigáveis É um Desafio Diferente
Um jogo-treino tem picos de intensidade, como sprints, mudanças de direção e duelos, que o treino de campo dificilmente reproduz na totalidade. Nas primeiras semanas de pré-época, a musculatura ainda não está adaptada a estes picos, especialmente após períodos de férias. Jogar minutos a mais, cedo demais, é uma das causas mais comuns de lesão muscular (isquiotibiais, adutores) nas primeiras jornadas da época.
A gestão de minutos não é sobre jogar menos: é sobre jogar a quantidade certa em cada fase, com progressão planeada e sem exceções por pressão externa.
O Plano: Progressão de Minutagem ao Longo da Pré-Época
| Semana | Amigável | Minutos-alvo (base) | Minutos-alvo (regresso de lesão/reforço tardio) |
|---|---|---|---|
| 1-2 | Jogo 1 | 30-45 min | 15-20 min |
| 3-4 | Jogo 2 e 3 | 45-60 min | 30-45 min |
| 5-6 | Jogo 4 e 5 | 60-90 min | 45-60 min |
Fase 1 (Semanas 1-2): Base Aeróbia
Minutos curtos, foco em volume de treino de campo. O amigável serve para avaliar coordenação coletiva, não para testar limites físicos.
Fase 2 (Semanas 3-4): Intensidade Específica
Aumenta-se a exposição a esforços de alta intensidade, como sprints, duelos e transições, sempre dentro do limite de minutos definido.
Fase 3 (Semanas 5-6): Simulação Competitiva
Aproximação ao formato real de jogo, com jogadores a cumprir blocos de 60-90 minutos e rotações já pensadas para a jornada 1.
Os Erros Mais Comuns na Gestão de Minutos em Amigáveis
- Deixar o resultado do jogo ditar a gestão de minutos (“está a ganhar, fica mais 15 minutos”)
- Não registar a carga interna (RPE) do jogo-treino, tratando-o como se fosse “descanso ativo” (um amigável de 60 minutos gera tipicamente RPE 6-7, muito acima de uma sessão de recuperação)
- Ignorar jogadores que regressam de lesão ou reforços tardios na tabela de progressão
- Repetir a mesma minutagem para todo o plantel, sem distinguir posições ou historial de lesões
🔧 Ferramenta Útil
Registar minutos e sensação subjetiva de esforço após cada amigável é o que permite ajustar a progressão a tempo. O Diário de Atleta da SportsLabTools centraliza esse registo por jogador, jogo a jogo.
Comunicação com o Plantel Sobre Minutagem
Explicar ao jogador porque não vai fazer 90 minutos no primeiro amigável evita frustração e resistência. A transparência sobre o plano de progressão (mostrado, não apenas dito) reforça a confiança no processo, mesmo quando o ego imediato do jogador pede mais minutos.
Consulta também: Testes Físicos na Pré-Época de Futebol: Avaliar a Condição à Chegada, a avaliação inicial que define os pontos de partida da progressão de minutos.
Checklist: Gestão de Minutos em Amigáveis de Pré-Época
- Tabela de progressão de minutos por semana definida antes do primeiro amigável
- Casos especiais (regresso de lesão, reforços tardios) com plano próprio
- RPE registado após cada jogo-treino
- Comunicação da minutagem-alvo feita ao jogador antes do jogo
- Substituições planeadas antes do apontamento inicial, não decididas em cima do joelho
- Revisão semanal da progressão com a equipa técnica
Conclusão
O jogo-treino de pré-época ganha valor quando é tratado como o que é: uma ferramenta de carga com um propósito físico definido. Um plano de minutagem escrito, comunicado e ajustado às particularidades de cada jogador é o que permite chegar à jornada 1 com o plantel completo, não com sorte, mas com decisão técnica.
Não deixes a progressão de carga ao critério do momento. Usa o Diário de Atleta da SportsLabTools para monitorizar minutos e RPE de cada jogador em toda a pré-época.