
O Meu Primeiro Treino num Quarteto Novo no Futsal: Diário de Adaptação
Mudei de quarteto a meio da época de futsal e no primeiro treino estava sempre fora do tempo. Diário em primeira pessoa das duas semanas de adaptação.
Escrito por
João Araújo
Professor de Educação Física (FADEUP) · Treinador de Futsal – Grau II · Licença UEFA B · Mestre em Educação Física
15 anos ligado à Educação Física em contexto escolar, 20 anos ao treino de futsal em escalões de formação e 5 anos como treinador de futebol. Atleta federado e amador de futebol e futsal.
Terça-feira, 20h15. O treinador junta-nos no meio do pavilhão e diz os quartetos para o próximo bloco. Eu, que jogava sempre com os mesmos três desde setembro, oiço o meu nome noutro grupo: com o ala esquerdo da equipa B, o pivô mais alto e um fixo que eu mal conhecia dos aquecimentos. “Vamos experimentar assim até ao fim do mês.”
Não é uma tragédia. Continuo a jogar, continuo na mesma equipa. Mas a partir desse momento, tudo o que eu fazia em automático deixou de funcionar. Sabia para onde o meu antigo ala ia sem olhar. Sabia quando o meu antigo pivô ia fixar e quando ia abrir. Nesse quarteto novo, não sabia nada disso, e o primeiro treino mostrou-o a toda a gente.
Terça, 20h20: O Primeiro Exercício e Já Estava Fora do Tempo
Primeiro exercício de circulação de bola, 4x0. Coisa simples. Eu passava e arrancava para o espaço como sempre fazia, e o ala novo não estava lá. Ele fazia o movimento meio segundo depois do que eu esperava, ou fazia outro completamente diferente. Duas vezes a bola saiu pela linha de fundo sem ninguém lhe tocar, e as duas vezes fui eu a arrancar para onde não devia.
O treinador não disse nada de especial, só “calma, ainda estão a conhecer-se”. Mas eu senti aquilo como se estivesse a jogar mal, quando na verdade estava só a jogar as referências erradas. É uma diferença importante, e demorei a percebê-la.
Ninguém Me Explicou as Referências do Quarteto
O que ninguém faz, e devia, é explicar por palavras como aquele quarteto funciona. Cada grupo de quatro tem acordos não ditos: quem sobe primeiro na pressão, para que lado o pivô prefere receber, se o fixo gosta de conduzir ou de largar rápido, quem fecha o segundo poste nos cantos. No meu antigo quarteto eu tinha aprendido tudo isso ao longo de meses, sem dar por isso. No novo, estava a começar do zero, mas a jogar à velocidade de quem já se conhece.
Nesse primeiro treino, o erro que se repetiu foi eu assumir que o pivô novo se comportava como o antigo. O meu antigo pivô abria para o meio-espaço para me dar linha de passe. O novo gostava de fixar o central e segurar a bola de costas. Eu continuava a passar para onde o outro estaria, e a bola batia nas costas de um adversário.
O Que Registei Nessa Noite
Cheguei a casa e, em vez de ficar só com a sensação de treino mau, escrevi. Três coisas concretas: as duas jogadas em que perdi a bola por arrancar cedo, o nome do movimento que o pivô novo faz e que eu ainda leio mal, e uma pergunta para fazer ao ala no treino seguinte (“quando é que abres e quando é que vens ao apoio?”).
Comecei a fazer isto todos os treinos na Ferramenta de Diário de Atleta da SportsLabTools: uma linha para o que correu mal, uma para o que já entendi do quarteto, e uma pergunta concreta para o dia seguinte. Não é para mostrar ao treinador. É para eu chegar ao treino seguinte com um plano em vez de esperar que o entrosamento apareça sozinho.
As Duas Semanas Seguintes
A adaptação não foi linear. Houve um treino, ao quinto ou sexto dia, em que pareceu que já jogávamos juntos há um ano, e no jogo do fim de semana voltámos a andar todos fora do tempo. Isso é normal e ninguém me tinha avisado: o entrosamento sobe aos altos e baixos, não numa reta.
O que ajudou a sério foi abrir a Ferramenta de Diário de Atleta da SportsLabTools e ler as minhas próprias notas em fila ao fim de duas semanas. Estava lá escrito, preto no branco, que os meus erros de arranque cedo tinham passado de quatro no primeiro treino para um no sexto. A sensação era de que continuava tudo mal. Os números diziam que estava a melhorar depressa. Sem ter registado, teria acreditado na sensação, e a sensação estava a mentir-me.
O Que Faria Diferente
Se voltasse ao primeiro dia, faria três coisas logo. Perguntava ao pivô, antes do treino, como gosta de receber. Combinava com o ala um sinal simples para “vou abrir” e outro para “vou ao apoio”, em vez de adivinhar. E dava a mim mesmo duas ou três semanas de margem antes de decidir se o quarteto “funciona”, porque nenhum quarteto funciona ao terceiro treino.
Consulta também: O Diário de Treino como Ferramenta de Autoanálise para Jovens Promessas do Futsal, sobre como transformar estas notas soltas num hábito que te faz evoluir mais depressa.
Não sei se todos os quartetos demoram o mesmo a encaixar, se calhar depende muito das pessoas. Mas se te mudaram de grupo esta semana e o primeiro treino foi um desastre, isso não diz nada sobre o teu nível. Diz só que ainda não sabes as referências. E isso aprende-se, se fizeres as perguntas certas em vez de esperar em silêncio que passe.
*O relato acima parte de uma situação real, com a identidade do jogador protegida e vários pormenores de contexto alterados de propósito para servir de exemplo.*