
Pubalgia no Futsal: Prevenir a Dor na Virilha com Reforço dos Adutores
A dor na virilha é das lesões mais teimosas do futsal. Porque o pavilhão castiga os adutores, o teste de 5 segundos que a deteta cedo e o protocolo Copenhagen.
Escrito por
João Araújo
Professor de Educação Física (FADEUP) · Treinador de Futsal – Grau II · Licença UEFA B · Mestre em Educação Física
15 anos ligado à Educação Física em contexto escolar, 20 anos ao treino de futsal em escalões de formação e 5 anos como treinador de futebol. Atleta federado e amador de futebol e futsal.
No futsal, a pubalgia é a lesão que mais tempo tira aos jogadores sem nunca os tirar completamente de jogo. É isso que a torna perigosa. O ala continua a treinar, a jogar, a arrastar a dor durante semanas, até ao dia em que já não consegue rematar nem arrancar. Nessa altura, a paragem não é de duas semanas. É de dois meses.
Quem treina uma equipa de futsal sabe reconhecer o padrão: um jogador que chega ao pavilhão, faz o aquecimento a coxear ligeiramente, “aquece” e depois joga normalmente. No dia seguinte acorda com a virilha presa. E repete.
A boa notícia é que existe um exercício com evidência sólida para reduzir este problema, e um teste de cinco segundos que permite apanhá-lo muito antes de ele ficar sério.
Porque o Futsal Castiga Tanto a Virilha
O futsal junta todos os ingredientes que sobrecarregam os adutores. Mudanças de direção constantes num espaço curto. Travagens bruscas num piso que não perdoa, ao contrário da relva. Controlo de bola com a planta do pé, que obriga a perna a trabalhar em abdução e adução dezenas de vezes por jogo. Remates de biqueira e passes laterais com o interior do pé, muitas vezes sem tempo para preparar o corpo.
E há a questão do ritmo. Num jogo de futsal, um ala faz um esforço de alta intensidade a cada poucos segundos durante o turno, e esse padrão de arranque e travagem é precisamente o que mais exige aos adutores, que funcionam como travões laterais da anca.
Um fixo que passa o jogo em posição baixa, a defender o 1x1 com o corpo lateralizado, sofre de uma forma. Um pivô que joga de costas e roda sobre si próprio sofre de outra. Mas nenhuma posição escapa.
Há ainda dois fatores que raramente entram na conversa. O primeiro é o piso. Um taraflex bem mantido absorve parte do impacto; um pavilhão municipal com piso de madeira antigo ou cimento pintado, não. As equipas que jogam fora em pavilhões muito diferentes do seu sentem isto nas semanas seguintes. O segundo é o calçado. Sapatilhas gastas, com a sola lisa, obrigam o jogador a travar com mais força muscular porque o pé escorrega. Parece um detalhe. Não é.
E há o pico de carga de setembro. Depois de seis semanas de férias, a pré-época de futsal enfia em poucos dias volumes altos de mudanças de direção. É nas primeiras quatro a seis semanas que aparece a maior parte das queixas na virilha, antes de o corpo se adaptar.
“Pubalgia” Não é Um Diagnóstico Só
“Pubalgia” é um nome de balneário para um conjunto de problemas diferentes. A classificação internacional mais usada hoje separa a dor na virilha em quatro grandes grupos: relacionada com os adutores, com o psoas-ilíaco, com o canal inguinal e com a própria sínfise púbica.
Na prática do futsal, a dor relacionada com os adutores é de longe a mais comum. Localiza-se na zona interna da coxa, junto à inserção no osso púbico, e agrava ao apertar as pernas uma contra a outra ou ao rematar.
Isto importa porque o que se segue neste artigo é sobretudo prevenção dos problemas dos adutores. Se um jogador tem dor mais alta, na zona do abdómen, ou dor que não piora com o aperto das pernas, a conversa é com o fisioterapeuta ou com o médico, não com o preparador físico.
O Teste de 5 Segundos que Deteta o Problema Cedo
O teste de compressão dos adutores (“squeeze test”) é o melhor aliado de um treinador sem departamento médico. O jogador deita-se de costas, joelhos fletidos a 45 graus, e coloca o punho fechado de um colega (ou uma bola pequena) entre os joelhos. Aperta com a força máxima durante cinco segundos.
Depois diz um número de 0 a 10 para a dor que sentiu.
Fazemos este teste todas as segundas ou terças-feiras, no início do treino, com todo o plantel. Demora três minutos. As regras são simples:
- 0 a 2: normal, treina sem restrições.
- 3 a 5: sinal de alerta. Reduz volume de remate e mudanças de direção nessa semana, reforça o trabalho de adutores.
- 6 ou mais: não treina em quadra sem avaliação do fisioterapeuta.
O que mais interessa não é o valor isolado. É a tendência. Um jogador que passa de 1 para 3 e depois para 4 em três semanas está a caminhar para uma paragem, mesmo que ainda jogue bem.
Registo estes valores semanalmente no Diário de Atleta da SportsLabTools, onde cada jogador responde em segundos e eu vejo a evolução do plantel inteiro numa só vista. Sem registo, a tendência perde-se na memória e só damos pela pubalgia quando já é tarde.
Copenhagen: o Exercício com Mais Evidência
O exercício de adução Copenhagen é, até hoje, a intervenção mais estudada para prevenir problemas na virilha em desportos de mudança de direção. Num grande ensaio com equipas norueguesas, a introdução de um programa curto de Copenhagen reduziu a prevalência de problemas na virilha em cerca de 40%.
O jogador deita-se de lado, apoiado no antebraço. Um colega segura-lhe a perna de cima (ou coloca-se a perna num banco sueco). A partir daí, eleva a anca até o corpo ficar em linha e baixa de forma controlada. A perna de cima faz o trabalho: é o adutor que sustenta o corpo.
A progressão é importante, porque o exercício completo é duro e provoca dor muscular nas primeiras semanas.
| Semana | Versão | Séries x repetições por lado | Sessões/semana |
|---|---|---|---|
| 1-2 | Alavanca curta (apoio no joelho) | 2 x 3-5 | 2 |
| 3-4 | Alavanca curta | 3 x 6-8 | 2 |
| 5-6 | Alavanca longa (apoio no tornozelo) | 2 x 5 | 2 |
| 7-8 | Alavanca longa | 3 x 8 | 2-3 |
| Época | Alavanca longa | 2 x 6-8 | 1 |
Na alavanca curta, o colega segura pelo joelho, o que reduz muito a carga. Na alavanca longa, segura pelo tornozelo. Um jogador que sente dor articular (não muscular) na zona púbica durante o exercício volta à versão anterior.
Complemento o Copenhagen com duas coisas: trabalho de abdutores (elevações laterais com elástico) para manter o equilíbrio da anca, e um exercício de tronco anti-rotação, como a prancha lateral com elevação da perna. O objetivo não é criar um programa de ginásio. É ter três exercícios que o plantel faz bem, sempre.
Encaixar no Microciclo sem Roubar Tempo de Quadra
Uma equipa amadora de futsal tem muitas vezes três treinos de hora e meia por semana, com o pavilhão partilhado entre escalões. Ninguém quer gastar 20 minutos em reforço muscular.
A solução é integrar o Copenhagen no aquecimento, depois da mobilidade e antes dos exercícios com bola. Com os pares já formados, 2 séries por lado ocupam cerca de 5 minutos.
Numa semana com jogo ao sábado, o trabalho de adutores entra na terça e na quarta. Na quinta, dia técnico-tático de ativação, e no dia de jogo, fica de fora. Depois do jogo, na segunda-feira de recuperação ativa, fazemos o squeeze test antes de decidir a carga da semana.
Com a ferramenta de Planeamento de Futsal da SportsLabTools deixo o bloco de adutores fixado nas sessões de terça e quarta de todo o mesociclo. Isso evita o esquecimento clássico da quinta semana, quando o calendário aperta e o reforço é a primeira coisa a desaparecer do treino.
Consulta também: Prevenção de Lesões na Pré-Época de Futsal: Protocolo para as Primeiras Semanas: como montar a base preventiva antes de o calendário competitivo começar.
Quando Parar e Mandar ao Fisioterapeuta
O reforço previne. Não trata uma pubalgia instalada. Há sinais que exigem avaliação e não mais uma semana de “vamos ver”:
- Dor ao tossir ou espirrar na zona inguinal.
- Dor que acorda o jogador de noite.
- Squeeze test acima de 6 em duas semanas seguidas.
- Dor que não “aquece”, ou seja, que continua ou piora ao longo do treino.
- Dor nos dois lados da virilha ao mesmo tempo.
Há também uma tentação que vejo muito no futsal amador: o jogador com pubalgia passa a jogar só de pivô, “para correr menos”. Não resulta. O pivô roda, trava e remata tanto como qualquer outro. A dor muda de sítio no campo, mas não sai da virilha.
E uma admissão honesta: não tenho a certeza de que o Copenhagen proteja da mesma forma um guarda-redes de futsal, cujo padrão de movimento é muito diferente (defesas em abertura lateral, quedas). Nos guarda-redes, uso o squeeze test com a mesma regra e trabalho a mobilidade da anca com mais cuidado, mas o volume de Copenhagen é menor.
Uma equipa de futsal que faz o squeeze test todas as semanas e mantém o Copenhagen durante a época não fica imune à pubalgia. Mas deixa de ser surpreendida por ela. E no futsal, onde um ala parado dois meses pode significar um quarteto desfeito, isso vale muitos pontos.
Acelerador opcional · a ferramenta é sempre gratuita
Chega a setembro com a época inteira planeada
Macrociclo, mesociclos mensais e microciclos semanais com as datas reais da época, sessões categorizadas por foco e por blocos técnico-táticos, e exercícios com esquema animado. Do Sub-11 aos Seniores, de 1 a 5 treinos por semana.