Jovem avançado de futebol cabisbaixo depois de falhar uma ocasião de golo

A Minha Seca de Golos no Futebol: Diário de um Jovem Avançado

Sete jogos sem marcar, o lugar em risco e a cabeça a pesar mais do que as pernas. Diário em primeira pessoa de uma seca de golos no futebol de formação.

Escrito por

João Araújo

Professor de Educação Física (FADEUP) · Treinador de Futsal – Grau II · Licença UEFA B · Mestre em Educação Física

15 anos ligado à Educação Física em contexto escolar, 20 anos ao treino de futsal em escalões de formação e 5 anos como treinador de futebol. Atleta federado e amador de futebol e futsal.

Sábado, 17h10. Quarto jogo seguido em que entrei aos 60 minutos e não fiz nada com isso. O meu treinador não disse nada no balneário, e há dias em que o silêncio dele custa mais do que qualquer bronca. No autocarro de volta a casa contei pelos dedos, encostado à janela: sete jogos sem marcar. Para um avançado de sub-17, sete jogos parecem uma época inteira.

Antes desta seca eu marcava quase sem pensar. Chegava à área, a bola aparecia, rematava. Agora chego à área e penso em tudo ao mesmo tempo: no pé de apoio, na saída do guarda-redes, no que o treinador vai apontar na ficha de jogo, nos dois miúdos do banco que querem o meu lugar. Penso tanto que a jogada já passou por mim antes de eu decidir o que fazer com a bola.

Escrevo isto porque, no meio da seca, ninguém me explicou o que estava mesmo a acontecer. Toda a gente à minha volta repetia as mesmas frases, “vais entrar”, “o próximo sai”, “confia”, e nenhuma delas me ajudou a marcar o oitavo golo. O que ajudou foi outra coisa, e demorei quase um mês a percebê-la.

O Remate Que Atirei Para a Segunda Fila da Bancada

Contra o segundo classificado da série, joguei os últimos vinte minutos. Aos 74 apareceu exatamente a ocasião que eu tinha pedido a semana toda em pensamento: cruzamento rasteiro da direita, central adversário a escorregar no apoio, eu sozinho a oito metros com o guarda-redes a fechar o primeiro poste. Há um mês punha aquela bola no segundo poste sem sequer olhar para a baliza.

Naquele sábado, parei a bola com a sola. Ajeitei o corpo. Esperei meio segundo a mais. E atirei por cima da barra, para a segunda fila da bancada, onde estava sentado o meu pai.

O problema não foi técnico, foi esse meio segundo. Quando estás confiante, remata-se antes de a defesa recompor. Quando estás em seca, queres garantir o golo perfeito, e o golo perfeito não existe. Só existe o golo que entra antes de o defesa chegar. Fiquei de mãos na cabeça, ouvi um “outra vez não” vindo de algum lado do banco e soube que ia sair antes de o treinador levantar a placa. Saí ao minuto 78.

O Balneário Não Ajuda, e Não É Por Mal

Durante uma seca, o balneário torna-se um sítio estranho. Ninguém te trata mal. É quase pior: tratam-te com cuidado. Os colegas deixam de gozar contigo depois de um falhanço, e é aí que percebes que a coisa está feia, porque a gozação normal é sinal de que ninguém anda preocupado. O treinador começa a falar contigo em voz mais baixa, com o tom de quem não quer partir nada.

Um colega mais velho, que já tinha passado por isto no ano anterior, disse-me uma frase no balneário depois desse jogo: “Para de tentar marcar o golo que te tira da seca. Marca o próximo golo feio que aparecer.” Não tenho a certeza se foi essa frase que mudou alguma coisa, mas foi a primeira que não me deixou pior do que já estava.

Foi Nessa Semana Que Comecei a Escrever Tudo

Na segunda-feira a seguir, em vez de fingir que o jogo não tinha acontecido, sentei-me à mesa da cozinha e escrevi. Data, minutos jogados, ocasiões que tive, o que senti nos segundos antes de cada remate. Não era para mostrar a ninguém. Era para parar de mentir a mim próprio, porque na minha cabeça a seca era “não faço um golo há meses” e no papel eram sete jogos, quatro deles entradas do banco, e só três ocasiões claras mesmo falhadas. Três. No resto do tempo nem sequer tinha rematado.

Passei a registar isto a sério na Ferramenta de Diário de Atleta da SportsLabTools depois de cada jogo: minutos, ocasiões e o estado da cabeça antes de entrar em campo. Ao fim de três semanas o padrão saltou à vista sozinho. Marcava nos jogos em que entrava aquecido a sério e falhava nos jogos em que entrava a olhar para a placa de substituições, a pensar em quem estava a sair. O problema não era o pé direito. Era a cabeça a chegar ao jogo dez minutos depois do corpo.

O Que Os Números Mostraram Que Os Meus Olhos Não Viam

Pedi ao delegado da equipa os dados dos últimos jogos. Não é nada de complicado: número de remates, zona do campo de onde rematei, passes que recebi dentro da área. Cruzei tudo na Ferramenta de Estatísticas da SportsLabTools e vi uma coisa que me deixou aliviado e envergonhado ao mesmo tempo.

Nos sete jogos da seca, recebi menos de metade das bolas dentro da área do que nos jogos anteriores. Não estava a falhar mais golos. Estava a rematar muito menos, porque tinha começado a cair para trás à procura de tocar na bola, para longe do sítio onde os avançados marcam. Na minha cabeça, a história era “perdi o faro de golo”. Nos números, a história era “deixei de estar na área”.

São duas coisas diferentes e resolvem-se de maneiras diferentes. A primeira mete-te num gabinete a falar dos teus sentimentos. A segunda mete-te no treino de quarta a repetir movimentos de rutura nas costas do central. A minha era a segunda, e ainda bem, porque essa eu sabia treinar.

O Que Mudei Depois Disso

Foram três mudanças, todas pequenas.

Primeiro, combinei com o treinador entrar sempre aquecido a sério: dez minutos de corrida e finalização atrás da baliza antes de ir para a linha, não os dois saltinhos do costume enquanto espero pela substituição. Segundo, dei-me uma regra simples para dentro da área: o primeiro toque é para rematar, não para ajeitar. Se corre mal, que corra mal com o pé a ir à bola. Terceiro, deixei de descer ao meio-campo à procura de jogo. A minha função é ocupar os cinco metros à frente da baliza e incomodar centrais, mesmo que passe vinte minutos sem tocar na bola uma única vez.

O oitavo golo saiu três jogos depois. Cruzamento da esquerda, primeiro poste, desvio de cabeça, nada de especial. Não foi o golo mais bonito que já marquei. Foi o golo feio de que o meu colega tinha falado, e foi o que quebrou a contagem. A contagem era a única coisa que estava mesmo a pesar.

Consulta também: Como Recuperar a Confiança de um Jogador depois de um Erro Grave no Futebol, o mesmo problema visto do lado de quem treina e tem de gerir a cabeça de um jogador em baixo.

Se estás numa seca agora, deixo-te só isto. Pode ser que metade do que resultou comigo tenha sido sorte a mudar de lado, não sei. Mas antes de aceitares que “perdeste o faro de golo”, conta quantas vezes estás mesmo a rematar por jogo. Muitas secas não são secas de finalização. São secas de presença na área, e a presença conta-se num papel, não se sente no estômago.


*Este relato baseia-se num caso real, mas a identidade da pessoa foi preservada e alguns detalhes do contexto foram recriados para fins ilustrativos.*

Acelerador opcional · a ferramenta é sempre gratuita

Estatísticas fiáveis já no próximo jogo

Taxonomia de ações pronta para registo ao vivo a partir do banco, com a localização no campo e na baliza já ativa — mapas de calor e de remate sem configurares nada.